Que pergunta é essa?

Bagunça. A gente em meio a uma brincadeira. Inventada. Em tempo real.
Caos. A gente mergulhada no experimento. Era tudo possibilidade. No agora.

Tinha muito barulho. Tinha. Tinha muito movimento. Tinha. Tinha muita paixão. Tinha.

Qualquer um que visse, desavisado, pensaria com direito: que loucura!
E por isso eu esperava.

O que eu não esperava era ouvir isso de uma das meninas:
“FÊ, COMO É QUE TU NOS AGUENTA?”

E por mais bem-humorada que tenha sido dita essa frase, foi impossível não me colocar a pensar sobre a bagagem que ela trazia consigo.

Aguentar? O que fez ela pensar que, para mim, aquele momento estava sendo um sacrifício?
Por que um momento de pura invenção e envolvimento soa negativamente num espaço educativo?
A construção do modelo de um bom aluno já deteriora, desde tão cedo, outros modos possíveis de se habitar esse espaço? Seriam essas as atitudes de um mau aluno?
E a imagem do professor? Tão rápido já se faz acreditar no professor que precisa suportar os seus alunos? No professor que diz “não” a toda e qualquer coisa que possa parecer que saiu do seu controle? Dizer sim é sinônimo de precisar aturar uma bagunça?
O professor está acima de seus alunos? Quem é o professor? Quem o aluno acredita ser seu professor?
As crianças mesmas já tomam aquilo que vem delas como menos? Pensam que suas iniciativas devem ser negadas, apoucadas?

Para ela, eu respondi simplesmente “Que pergunta é essa?”, com um sorriso.
“Eu adoro vocês e adoro o que fazem.”
Me arrependo de não ter dito o quanto eu acredito também na potência da bagunça, nessa possibilidade de mergulhar fundo em algo que não se sabe onde vai dar, de se envolver, dizer sim. Olhar para o outro, trocar. Experimentar.
Fotografia: Martha Reichel Reus

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